Tuesday, 3 April 2012

Sobre a minha carta de alforria



Meu querido,


Sinto-o agudamente. Sinto-o dolorosamente. Ao vazio.


Sabes que não sou de me queixar. Sabes que sou paciente, que tudo suporto. Mesmo o que não cabe em mim, suporto, quase rebento pelas costuras. Mas não descoso.


Bolas, mas isto, isto tem dado cabo de mim ... 


Não é a solidão que prevalece sequer. É a sede e a fome. Não me dão de beber, nem de comer. Nem gotas, nem migalhas. Estou tão franzina, se me visses! Eles são bons.  Conhecem muito: tecnicamente irrepreensíveis, memória espectacular, eticamente impecáveis. Mas são estreitos. Tão pobres. Feios de leves. Sabem pouco. Falta-lhes densidade, profundidade, silêncio, sofrimento. 


Já não consigo calar um segredo ... Invento-me e preciso-te
Afinal, a que horas te espero ?


Tua M.

Wednesday, 21 September 2011

Sobre 1 + 1 = 1

Eles são desligados, completamente ausentes, actuam mas não sentem. Não são, porém, insensíveis, muito menos os mais racionais ou os mais fortes. Têm medo da solidão, do envelhecimento, da morte e da aniquilação. O que contemplam é tudo o que desejam. Eles mesmos são fragmentos, peças soltas e individuais. Não se envolvem, muito menos se fundem. Um mais um são dois.

Valha-nos a ilusão delas! Que as faz crer que tudo isto não passa de zombaria. E ... Talvez seja. Mas somente quando a verdade existe, um mais um seja mesmo um. 

Wednesday, 31 August 2011

Sobre os pés grandes

Meus pés são tamanho 50, mas haverá algum fabricante que faça sapatos tão grandes? Bem, posso sempre pedir ao sapateiro, àquele velhinho, de bigodes cansados, que fuma cachimbo nos dias de chuva, que faça um par especialmente para mim. Do mal, o menos, sempre fico com uma forma de proteger os meus dedos do frio, as plantas das pedras do alcatrão e dos bichinhos da terra.

Mas ... E qual é a solução para aqueles que sentem mais do que as palavras tornam possível? Ficam em silêncio? Um silêncio maior que o coração e o sangue que os inunda, que o ar que lhes insufla os pulmões, maior que o corpo inteiro e a alma do Além. Um silêncio que paira sobre todo o céu e penetra por entre todas as florestas, um silêncio que chapinha em cada onda do oceano, um silêncio que troça do rugir das feras e se encanta com o piar dos passarinhos. Um silêncio que preenche todo o vácuo. Um silêncio para o qual o tamanho do mundo é insuficiente e o do Universo se prenuncia escasso. Será, então, a infinitude a única medida deste silêncio? Única, única, única, única, única. Antes, será o seu não apalavrar que o torna tão impossível prisioneiro? Impossível, impossível, impossível, impossível, impossível.

O que é isto, meu Deus?!

Tuesday, 2 August 2011

Sobre mim

Quando me achar capaz, um dia hei-de escrever-me.

Monday, 7 March 2011

Sobre a prisão de D

Olho-te fixamente. Quero um pouco de toda a tua liberdade … São centenas de dias aqui preso entre esta cama e este cadeirão. Invejo-te, perdoa-me, mas não consigo não o sentir.

Aperto este maldito interruptor, mas quê!, perdi a minha credibilidade perante o mundo. Chegam-me impacientes e falam-me como se eu já lhes tivesse pedido alguma coisa. Eles sabem o que preciso antes de mim mesmo. O pingo de humanidade ainda os lembrou de me colocar perto de uma janela, com vista para o largo. De uma janela através da qual poucas vezes olho, pois prefiro desviar a minha atenção para a entrada do meu quarto. Não tenho visitas. Fico mais ansioso pela entrada de alguém por aquela porta do que pelo pássaro que poisa no beiral da minha janela. Porque o pássaro não me pode salvar. Mas quem entra por aquela porta, é igual a mim, e um dia irá entrar e dizer-me, Vai!

E se calhar ando a enganar-me.

Se calhar deveria abrir a janela e colocar-me no dorso do passarinho e simplesmente deixar-me levar ?! Afinal, que mais tenho a perder ?!

D, 34-7.

Thursday, 3 February 2011

Sobre a sua sensibilidade

- Vim despedir-me. Vou mudar de Serviço, Sr. Joel.

- Não me diga ?! (...) Tome estas palavras como se minha filha fosse. (...) Não lhes dê o seu coração. (...) Entretanto, tenha tempo: tempo é vida. Não se esqueça.

Como é que (a) viu tão profundamente ?!

Friday, 14 January 2011

Sobre uma Fé

Acredite quem quiser, mas as "más pessoas" são uma fraude.

Monday, 6 December 2010

Sobre um amém

Alguém capaz de fazer desligar esta ignóbil máquina que mata a definição de "pessoa" ?! Velocidade louca. Ninguém ouve. Ninguém vê. Ninguém toca. Ninguém sorri. É assim tão difícil ser mais gente ?!

Uma passagem para a Lua ?! Eu compro.

Friday, 29 October 2010

Sobre a teia

Embora não pareça, sou muito introvertido. E a verdade é que me sinto feliz. A minha introversão dá-me felicidade. Não preciso dos outros para me satisfazer em termos emocionais. Nunca procurei amigos. Se os criei ou não, as pessoas o dirão. (Mário Viana de Queiroz, em entrevista para o Boletim Informativo da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, Nº9)

Quando os outros entram na nossa vida e furam a nossa esfera emocional, em que colo se consola a tal independência emocional ?! Mais a mais, será que a nossa felicidade, mesmo que dada pela introversão, conseguirá ficar intangível ?! Ignora-se a teia onde nos emaranhamos todos os dias. É mais ... leve de suportar.

Friday, 6 August 2010

Sobre os contrários

O que não se começa, nunca se termina. Mas também nunca se possui.
Antes perder ou jamais experimentar ter ?!

Wednesday, 21 July 2010

Sobre palavras gratuitas

Se há coisa que me irrita é a resistência das pessoas aos maus hábitos.

Está tudo mal, o sistema isto, o sistema aquilo, se fosse assado é que seria bom. Tudo bem, legítimo. Eu mesma concordo! No entanto, toda esta razão se desmorona quando pessoas sensíveis a esse desagrado alheio tentam alterar com a melhor das intenções para que, nem que seja por uma vez, tudo funcione melhor e ao expressarem tal tentativa, emergem as vozes, diria quase esquizofrenizantes, lá do fundo, berrando Ei, o que é isto ?! Mas agora vamos fazer isto desta forma ao invés de fazer da forma do costume ?

A confusão é cabal naquelas cabeças ... Peço, usem as palavras com sentido!

Caso contrário, vou ter que dar razão à minha Avó: Não há pachorra!

Friday, 16 July 2010

Sobre a Salta-Pocinhas

Personificou Aquilino a mãe da Salta-Pocinhas que a acautelou, Se ainda o não sabes, ficas sabendo: quem não trabuca, não manduca. Liga-se a televisão em Portugal e muda-se o paradigma: Só manduca quem não trabuca.

Pobre Salta-Pocinhas!

Thursday, 15 July 2010

Sobre as escolhas do Menino

Ensinaste-me tu que há seres mais próximos da natureza do ferro, porque pesam, se vinculam, comprometem e afeiçoam. Descendentes de Anteu, talvez. Aborrecem-te, prevejo. Tu que és de hidrogénio, leve, livre, solto, descomprometido, e perdoa-me, irresponsável até certo ponto, queres convencer-te de que és autêntico! Entre ferro e hidrogénio, fala-nos Kundera, uma vida vestida unicamente de leveza perde o Norte ...

Pergunto-te eu, de que é, então, feito o teu chão ?!

Tuesday, 16 February 2010

Sobre a Primeira Crise Existencial (ao 4º ano de vida)

- Miguel, o que queres que a Madrinha te traga pela Páscoa ?
- Um regador verde com água, uma bola de futebol, uma bola de basquetebol e uma rede.
- E que mais ?
- Quero crescer.
- Mas é tão bom ser assim pequenino, Miguel.
- Não, não é! Quero ser grande como o Papá e a Mamã.

Miguelito, vou fazer uso de palavras tuas, pões-me tonta da cabeça!

Friday, 15 January 2010

Sobre um porquê

O Buda roubou-me - pensou Siddhartha -, roubou-me e deu-me ainda mais. Roubou-me o meu amigo (Govinda), que em mim cria e que agora apenas crê nele, que era a minha sombra e que agora é a sombra de Gotama. Mas deu-me Siddhartha, eu próprio.
In: HESSE, Hermann. Siddhartha. Colecção mil folhas. P.33.

São tantos os Buda dissimulados que vislumbro ... Tantos mais os Govinda enlevados e vendidos. E tão poucos, mas tão poucos os Siddhartha resistentes.

Porquê ?


Monday, 11 January 2010

Sobre o princípio

Causa-me um certo enfado o cliché que preconiza tudo olhar, ver, sentir, fazer, enfim, viver como se fosse a última vez, a derradeira, a final; um espírito jovem não consegue crer nisso. Sem embargo, porém, é enorme e belo o mundo que se redescobre e reinventa quando se existe como se todos os dias fossem o começo e a origem.

Não há nada equivalente, que bom que é ser-se rosebud Opening!

Thursday, 7 January 2010

Sobre o perlimpimpim das relações humanas

Há ligações humanas que nos afundam como areia movediça. Há ligações humanas que nos aprisionam como correntes. Há ligações humanas que nos sugam o âmago. E depois ? Depois amarrotam a nossa Alma como uma folha de papel inutilizada. E assim nos vamos indevidamente fossilizando.

Mas, em contrapartida …

Há outras ligações humanas que nos inspiram. Há outras ligações humanas que nos facultam a segurança necessária ao crescimento. Há outras ligações humanas que nos chegam a transformar em seres alados. E depois ? Depois penso ... Que Alma ficou mais encorrilhada para eu sentir a minha menos encarquilhada ?

Sophia compreende-me. O que ela escreveu acerca da cidade do Porto, amplio eu para o mundo inteiro: como a menina que tem medo de experimentar a temperatura da água do mar com a pontinha do dedo grande do pé, saio e reparo que o mundo lá fora é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias.

Saturday, 28 November 2009

Sobre a Máquina que vende livros como "snacks"

Querido Principezinho,

Vou contar-te a última. Aqui, neste planeta, agora vendem-se livros como se vendem snacks! Imagina. Para não pensares que sou injusta, ao tomar consciência do que vi, tentei ser compassiva para com ELES. Bem, se os snacks servem para saciar a fome do nosso corpo, terão pensado ELES que os livros saciam a fome da nossa alma ?! Bahhh. A cada nova ideia que têm, mais esfomeados de espírito nos deixam, pois activam um ininterrupto feedback positivo.

Os livros não são barritas de cereais, não são uma garrafa de água de emergência ou umas bolachinhas digestivas. Bolas, os livros são Arte! Os livros são humanos, tão humanos quanto os seus criadores. Não pessoas, mas são partes de pessoas.

É colocar umas quantas moedinhas na ranhura, seleccionar qual o livro que desejo e é vê-lo cair, dar tombos como a garrafa de água, depois é tirá-lo com a mão e vir embora satisfeita com a minha compra leviana. Porventura para a maioria dos meus compatriotas é algo natural à evolução dos tempos (e todos descansam a consciência sobre esta almofada) e tudo o que estou para aqui a escrever não passam de palavras resistentes à mudança! Mas, tal como te disse inicialmente, eu tentei compadecer-me. No entanto, como vês, não consegui. E, por isso, acho que o que te escrevo merece algum apreço.

Estou triste e preocupada. As pessoas estão a afastar-se cada vez mais umas das outras. Será que há alguém convencido que aquela besta da máquina consegue substituir todo o contexto de uma livraria ?!

Saturday, 22 August 2009

Sobre o submundo feminino

Certa vez, li numa crónica o seguinte: As mulheres preferem o estigma da traição, ao estigma da solidão. No entanto, eu refaria a frase e modificá-la-ia da seguinte forma: As mulheres preferem o estigma da traição, ao estigma da perda. Estas duas frases abrangem dois tipos de mulheres: as que não gostam de estar sós e as que não gostam de perder o que alguma vez já possuíram. Embora aparentemente queiram quase dizer o mesmo, na verdade não o dizem! E para as pessoas que vivem de pormenores, a diferença é abismal.

O primeiro grupo de mulheres não tolera a solidão. Simplesmente tem medo, terror de se ver só. São mulheres frágeis e dependentes afectivamente. Mulheres que não aguentam colocar a chave na porta sem terem um nome que invocar, uma presença a aguardá-las. E, por isso, embora absurdo, não me espanta que sejam mulheres que tolerem a traição, pois vêem a solidão como algo que as devora.

Ao segundo grupo de mulheres pertencem aquelas que não gostam de perder o que têm. Não gostam de ser roubadas, nem abandonadas. Não são possessivas, não, nada disso. Somente leais. São mulheres que reconhecem o valor único das pessoas que entram nas suas vidas. Não entendem o carácter efémero que os mais despreocupados e inconsequentes tendem a atribuir ao que para elas é naturalmente duradouro.

Não poderia deixar de referir ainda que há mulheres, talvez um terceiro grupo, que preferem o estigma da solidão aos estigmas da perda ou da traição. Estas mulheres são as mais problemáticas, porque se tornam mulheres amargas, solitárias e orgulhosas. São mulheres suficientemente fortes (demasiado fortes) para tolerarem a árida solidão e suficientemente sensíveis (demasiado sensíveis) para não conseguirem suportar uma tentativa. Vivem de realidades escancaradas ou ficções aprisionadas.

Conheço mulheres dos três grupos e todas acabam por ter um denominador comum, a doce e sedutora feminilidade.

Saturday, 28 March 2009

Sobre um ;

"Com a morte de cada homem termina um universo cultural específico, mais ou menos rico mas sempre original e irrepetível. O que o homem deixa quando morre – os seus escritos, os objectos culturais que criou, a memória da sua palavra, dos seus gestos ou do seu sorriso naqueles que com ele viveram, os filhos que gerou – tudo exprime uma realidade que está para além do corpo físico, de um certo corpo físico que esse homem usou para viver o seu limitado tempo pessoal de ser homem." In: "Viver, envelhecer e morrer com dignidade", de Daniel Serrão.
Desta leitura, ocorrem-me dois aspectos fundamentais. Primeiro, a Vida é uma revelação a todo e qualquer instante; seja na conversa com um Amigo íntimo, seja com o olhar de um desconhecido com o qual nos cruzamos despreocupadamente na rua. Segundo, apesar de todo o avanço da Ciência, felizmente, nada consegue mensurar a nossa imaterialidade ...
Este texto do Dr. Daniel Serrão não vos enche de uma enorme vontade de conhecer todas as pessoas do Mundo ?

Sunday, 22 March 2009

Sobre o conceito de Família

“A ciência hoje permite a separação quase total entre pais e filho. Já não é preciso que o pai e a mãe se unam (fecundação homóloga); mas também não é preciso que se encontrem (fecundação heteróloga), ou sequer se conheçam (bancos de embriões, esperma e óvulos). Não é necessário que ambos estejam vivos (inseminação post mortem), ou que a mãe fique grávida (maternidade substitutiva). Por enquanto ainda é forçoso que pelo menos um deles saiba, mas vai deixar de ser (bebés em laboratório), ou sequer de haver um pai e uma mãe (clonagem).” Autor: João César das Neves, 2006.

Não tenho por hábito pensar ou escrever em Inglês, mas depois de ter relido esta transcrição só me lembro de questionar: Is this progress or are we playing God?

Sunday, 8 March 2009

Sobre metamorfopsias

Nos últimos tempos, as pessoas que conheço razoavelmente bem têm sido, por breves instantes, deformadas aos meus olhos, à semelhança do que acontece quando se entra na casa dos espelhos da feira popular. O seu semblante fica disforme, são-me estranhas. Começo, então, a sentir-me desconfortável junto delas e consigo mesmo sentir medo delas …

Nestes momentos de jamais vu, apetece-me meramente virar costas ao mundo. Pego no meu chapéu e corro para longe. Sento-me na pedra mais a jeito e lanço o anzol que pende da minha cana de pesca. De frente para o mar, sinto as recordações morderem o isco.

Sardinhas de palavras. Palavras que, injustamente, na altura apreciei tão pouco. Carapaus de gestos. Gestos que por terem sido tão fortes e autênticos, ainda hoje, ao recordá-los me taquicardizam. Um tubarão de sentimentos. Sentimentos que foram dirigidos especificamente para mim e eu, a todo o custo, embora não saiba em nome de quê ou de quem, os refutei. Nessa altura, o tubarão era pequeno e provavelmente fácil de ser pescado. Hoje, o tubarão é adulto, enorme! Impossível de ser roubado ao mar. Incrível! Passados estes anos todos, o meu passado mantém-se o meu porto de abrigo.

Aqui, não vale a lei dos similares, jamais vu só cessa com déjà vu! Para quê lamentar as não-acções fora do seu momento ?! Mesmo não o praticando frequentemente, nunca me esquecerei de que tudo tem um instante na linha temporal do mundo para acontecer.

Thursday, 1 January 2009

Sobre “alpha et omega”

É extremamente interessante aperceber-me que a nossa inteligência é uma espada de dois gumes, ora nos faz os seres mais profundos, ora nos torna de tal modo artificiais até cairmos no patético. Muito facilmente perdemos os motivos das nossas escolhas, uma vez que, apesar de toda a nossa complexidade, na nossa essência, somos seres práticos.

Faz algum sentido termos celebrado uma mudança de ano? Na verdade, o ano só mudou porque nós, seres humanos, quisemos que o Tempo existisse. Tornamos o Tempo num pretexto que nos força a estar juntos e nos incentiva ao encontro, à união … Enfim, no final das contas, o Tempo consegue fazer-nos escapar à temível (!) solidão.

Queremos que haja um Novo Ano para termos uma oportunidade frustrada de condicionarmos a nossa mortalidade. Pois, cada Novo Ano é uma possibilidade de ruptura, de fim seguido de começo, de renascimento. É, contudo, Sol de pouca dura. Porque o Novo Ano é tão-só uma mera repetição de todos os anos precedentes, porque o Homem é um ser obstinado. E isso é evidente a cada transição de ano. Ora, vejam, a guerra na faixa de Gaza permanece; quem é pobre continua pobre; quem tem de morrer, morre; os corruptos continuam poderosos; os comentadores discursam palavras moribundas de optimismo …

Tudo se mantém. Afinal, para quê tanta festa quando Ano Novo não traz Vida Nova?

Wednesday, 10 December 2008

Sobre um ano, cinco meses e catorze dias

Anteontem, pela primeira vez, assisti na televisão ao Carlos Paião a cantar ao vivo num programa da Simone de Oliveira. Já o tinha ouvido na rádio pelas músicas mais populares, já o conhecia por fotografias que haviam surgido na televisão ou nos jornais. Mas nunca o tinha visto tão completo, tão vivo! De uma timidez envolvente acompanhada de uma quieta e brincalhona afabilidade. Fiquei estarrecida. Os seus movimentos rimavam com o seu sorriso simples. Simples, Carlos Paião é todo ele simples!

O que mais me intrigou realmente foi ter sentido saudades dele! Era isso que eu estava a sentir naquele momento. Saudades. É possível sentirem-se saudades de alguém que não conhecemos em Vida ?! De alguém que nunca tomei consciência existir enquanto estava vivo ?! É aqui que, novamente, a Vida se me revela um número de magia … Não se explica. O facto de ele se ter licenciado em Medicina e depois ter optado pela música, também, sem querer e querendo, reveste-se de significado.

Qualquer morte é uma perda. Mas há perdas que são mais mortes que outras. Quem morre antes do tempo - não precisa ser por força o tempo biológico - fica para sempre com o cognome de D. Sebastião, ficará sempre
o desejado.

Escrevo ouvindo-o. Imagino-o num cafezinho à média-luz junto de um piano. Não é a esmo que, mesmo passados vinte anos da sua morte, haja alguém que nunca o conheceu, mas o sinta tão vivo e tão sereno à distância da música:
Quem me dera saber fazer versos na voz de perlimpimpim. Pôr na alma sonhos de boneca perfumada para me dar conta que já mais nada vale nada ao pé de ti.

Eu podia lutar contra os vivos, mas não contra os mortos. (…) Rebeca nunca envelheceria. Rebeca seria sempre a mesma. E contra ela, não podia lutar.
In: DU MAURIER, Daphne. Rebeca. Colecção dois mundos. Lisboa. Pp. 215 – 216.

Friday, 7 November 2008

Sobre o discreto socialismo do corpo

Um rapaz e uma rapariga discutiam no meio da rua. Ela chorava e gritava. Ele olhava-a com todo o ódio que o desamar alguém pode fazer brotar … Independentemente de que natureza fossem, as diferenças estavam a afastá-los, a gelá-los segundo a segundo, um perante o outro.

Inesperadamente, no céu, começaram a voar peúgas, sapatos, calças, camisolas ... O rapaz e a rapariga ficaram nus, mas continuavam absortos naquela acérrima discussão. Discutiam cada vez mais e nem se aperceberam que haviam ficado sem roupa.

A zanga perdurava e não se importavam com o espectáculo que davam à vizinhança coscuvilheira. Não queriam saber! Assim do nada, ficaram sem pele e de ossos expostos. Odiavam-se cada vez mais. Amavam-se cada vez menos. O afastamento era claro, embora nunca estivessem estado tão próximos, tão parecidos um com o outro.

Foi, então, que apodreceram. A terra transformou-os em terra. Não havia como se insultarem mais. Com o silêncio, chegou o fim e, agora, mais do que parecidos, eram um só!

Senhores seres humanos, por que razão não sabem cuidar uns dos outros enquanto as vossas diferenças são as responsáveis pelo vosso encontro ?

Friday, 24 October 2008

O pino de Maslow

Foi a um Sábado que extraordinariamente apanhei o metro para seguir rumo à terra natal do meu Pai. Estava cheio! Não parecia ser fim-de-semana, parecia-me um qualquer dia útil. Sentado à minha frente estava um senhor que, mais tarde, eu me apercebi ser cego. Entretanto, o senhor levantou-se e guiado pelo seu amparo, encaminhou-se até à saída.

Estranhamente, eu não o olhava, porque mesmo sabendo da sua cegueira, acho que não seria justo observá-lo tão declaradamente. A cada passo seu, entoavam sons simétricos no lado direito e depois no lado esquerdo e, novamente, no lado direito e depois no lado esquerdo. Encontrou um obstáculo: um varão de ferro pintado de amarelo. O seu amparo conseguiu detectá-lo. Seguro de que estava no caminho certo, o senhor cego avançou um pouco mais. Quando, de repente, eu olhei e, no espaço de um ciclo respiratório meu, vi o senhor cego bater com a fronte naquele varão que inesperadamente era alargado na sua porção superior. Ele não tinha amparo que conseguísse evitar aquele imprevisto, a não ser sofrer no seu próprio corpo a dor de não ver. Quando vi aquele embate, o meu saco lacrimal contraiu-se, mordi o lábio inferior e fechei os olhos. A minha vontade genuína era ir ao seu encontro e perguntar-lhe se estava bem. Mas não fui. Aliás, ninguém foi. Cuidei dele ao longe. Quando o senhor cego recuperou da pancada, consciencializou-se da dor, cerrou os olhos com muita força e manteve-os fechados. O escuro continuou a ser a sua luz …

Finalmente, o senhor cego chegou à porta do metro e ao seu destino também. Já de costas para mim, eu olhava-o. A porta abriu-se e foi neste instante preciso que um sentimento de revolta ardeu dentro de mim. Apesar de na porta estar em letras maiúsculas, ANTES DE ENTRAR DEIXE SAIR, um grupo de adolescentes entrou enlevado pela altivez da juventude. Foi preciso uma senhora gritar, Deixem o senhor sair! Eu fiquei onde estava. Observava o senhor cego agora através da janela, enquanto as adolescentes se acomodavam junto de mim. No caminho, eu pensava em como se estaria a sentir aquele homem … Quando ele chegasse a casa teria alguém com quem falar ?! Teria alguém que desse pela presença dele ?! Ao mesmo tempo, ouvia-as falar de festas e roupas e de um tal Jorge.

Nesse dia, adormeci a pensar que a pirâmide de Maslow fizera a roda, o vértice ficara desequilibradamente virado para baixo!

Monday, 15 September 2008

Sobre uma fogueira

3 Toros de madeira grandes e robustos
10 Pauzinhos finos
2 Folhas de jornal
1 Acendalha
1 Fósforo
1 Fole
O2 q.b.

Foi desta forma que dois exemplares modernos do Homo erectus recordaram a magnífica descoberta do fogo. Porém, esse evento trouxe-nos mais do que luz. Na verdade, a fogueira não serviu sequer para nos aquecer - aliás, nem frio estava naquele crepúsculo de finais de Julho - nem somente para cozinhar o jantar. Essa labareda serviu para ver, ou mais correctamente, para reparar. Reparar que a pessoa que estava ali ao meu lado, um dia, iria devolver o equilíbrio à Natureza e também viraria cinzas.

Foi, então, que, para mim, cada milímetro cúbico da sua existência física se tornou precioso: as células, o cabelo, as rugas de expressão, os movimentos e a própria voz. Tudo inflacionou o seu valor! Senti estar diante um Ser Não Quantificável (S.N.Q.).

Vamos colocar mais uns quantos pauzinhos, disse-lhe eu. Gostava de lhe ter falado sobre o que realmente estava a pensar. Mas, gostava ainda mais de lhe ter falado sobre o que estava a sentir, ao ponto daquele momento se ter tornado único na minha existência.

Gostava de lhe ter dito quão queria perdurar, abraçar e não deixar fugir aquele instante. No entanto, ficamos ali, mudos no mundo dos sentimentos, a contemplar o fogo que consumia a madeira … Até virar brasas. À noitinha, das brasas restaram cinzas; e do meu pensamento arrependimento por ter ficado calado.

Sunday, 3 August 2008

Sobre a alma inflamada

Há dias assim …

Há dias em que a alma não nos cabe no corpo. Evapora-se pelos poros da pele, porque não suporta ficar confinada às costuras das formas que a encerram. Nesses dias, está inflamada, ou seja, insatisfeita.

Ainda nesses mesmos dias, a alma expressa nitidamente os quatro sinais cardinais da inflamação: aquece, adquire cor, incha e dói. Ao final do dia, caso o processo inflamatório tenha progredido, o quinto sinal de inflamação torna-se evidente: perde a função. Aí, o corpo esvazia-se!

Tudo isto é cíclico. Aos momentos de equilíbrio basal (fisiológico, se assim quiserem) opõe-se instantes patológicos de agudização. A intrínseca periodicidade, faz-me recordar o gráfico da função trigonométrica seno: ora sobe, ora desce … ora sobe, ora desce. Muito embora, não tenha um contradomínio tão bem delimitado, visto que, às vezes, se aproxima intimamente do valor não real menos infinito.

A inflamação da alma encontra nos microrganismos dos afectos os seus principais agentes etiológicos. Cura ?! Não há panaceia. Contudo, há um anti-inflamatório que consegue mitigar a sintomatologia deste quadro: o sono. Dormir e esperar que amanhã seja um novo dia e, por isso, a possibilidade de um novo começo …

Friday, 18 July 2008

Sobre a última palavra

Muito provavelmente imbuída pelo recente estudo sobre o processo de luto, reavivei uma questão antiga: qual virá a ser a minha última palavra no momento em que fechar os olhos para sempre ?! Para mim, é uma pergunta pertinente na medida em que as palavras têm um valor elevado. As palavras são a única forma de transmitirmos a quem nos ouve, a quem nos lê, com algum grau de verosimilhança, o que vai dentro de nós.

Por muito tempo, a minha palavra escolhida foi Saudade. Seria a Saudade de estar viva, a Saudade de tudo quanto existir me proporcionou. No entanto, Saudade não chega. Não me parece que seja suficiente. Nem de propósito, hoje saí à rua e estava sol, aquele sol que um estudante dentro de quatro paredes está privado de sentir, e, por isso, optei por ir a pé. Qual não foi o meu espanto ao dirigir distraidamente o meu olhar para o lado esquerdo, encontrei uma placa que dizia: Rua da Saudade! Eu que até sou péssima a dar indicações a estrangeiros (não sei quantos deles foram já, sem querer, enganados por mim) nunca mais vou esquecer onde fica aquela ruela. Mas, certamente ninguém me vai indagar pela Rua da Saudade, porque é um beco sem saída. Podem não acreditar, mas esta associação fez ricochete em mim. A Saudade não é mesmo isso ?! Um sentimento semelhante a um beco sem saída ?! Neste seguimento, decidi que Saudade seria a preterida, não a preferida.

Estas coisas das palavras lembram-me invariavelmente uma conversa de rádio que escutei com admiração, numa noite, faz três anos. Nessa conversa, o entrevistado era o Dr. Eduardo Prado Coelho. Perguntaram-lhe qual seria a sua palavra de eleição. Entre a pergunta e a resposta, a minha cabecita deu voltas e voltas aos milhares de vocábulos da Língua Portuguesa que ele poderia escolher. Sabem qual foi a escolhida ?!
Ternura.

Cuidem para que cada palavra vossa seja minimamente fidedigna, nunca se sabe quando poderá ser a última …

Wednesday, 9 July 2008

Sobre achados em cima da corda

As pessoas vivem no limbo. Caminham sobre aquela linha que separa a doença da doença. Sim, porque só sobre a linha se tem saúde, ou seja, se se tombar para um lado podemos cair no excesso de saúde, se se tombar para o outro, caímos na falta dela. Ambos os extremos são nocivos, um por não nos permitir reconhecer os nossos limites, outro por não nos permitir provar do que realmente somos capazes. A sabedoria popular, mais uma vez, consegue ser mestra: no meio é que está a virtude.

Descobri recentemente que mantermo-nos sobre essa linha é uma Arte. E eu que julgava ser uma aquisição inerente aos normais … Mas não, é mesmo uma Arte. À semelhança do equilibrista que faz o seu número sobre a corda, todos nós somos igualmente equilibristas e todos possuímos a nossa corda para completar o nosso número. E ressalvo que não estou a tomar a Vida como sinónimo de um circo no sentido depreciativo do termo.

Há momentos em que somos obrigados a dar saltos mortais e uma vez bem-sucedidos, a nossa assistência congratula-nos com fortes aplausos e o nosso ego engrandece. No entanto, tal como é deduzível, uns possuem mais equilíbrio do que outros. Eu, por exemplo, tenho de admitir que não tenho a melhor amostra de massa cerebelosa … Tropeço muitas vezes e caio outras tantas sem conta. Felizmente, sempre tive amparo, às vezes meu, outras vezes dos que me cercam. Francamente, não sei se a culpa maior é do cerebelo ou de um centro superior, o cérebro. Sou muito distraída e essa característica não está, de facto, ao encargo do cerebelo. Basta um ruído de fundo proveniente da assistência para eu me desequilibrar.

Descobri ainda que não importa o quanto gostas de te equilibrar, o importante mesmo é o que mostras durante a actuação. É justo, mas muito custoso para aqueles que nunca vão conseguir ser outra coisa senão aprendizes.

Querem um conselho ?! Um bom equilibrista só olha num sentido: para a frente.

Sunday, 22 June 2008

Sobre quem não é o João Sem Medo

Medicina é bom-senso! Concordo. Está em causa o bem do outro e aí não podes ou, pelo menos, não deves vacilar.

Mas, e a tua Vida também tem deve ser, invariavelmente, sinónimo de bom-senso? A forma como tu vais vivendo também deve primar por seguir os rectos e rígidos roteiros da sensatez? Qual o preço que pagas se nunca tiveres experimentado dar um passo em frente sem pensar duas vezes?

É o medo que te cala o coração.

Ninguém faz a mais a pequena ideia de como o medo é poderoso. Estou a lembrar-me das Aventuras de João Sem Medo que mal saiu da aldeia Chora-que-logo-bebes, acabou por descobrir o medo. O medo está atrelado à sensatez.

Quando és pequenino, tu simplesmente desconheces. Não pensas que se puxares a toalha da mesa os copos e os pratos se vão quebrar e, pior do que isso, que te podes magoar nos vidros pontiagudos; socorrem-te teus Pais movidos pelo receio de que te tenhas aleijado. E tu nada percebeste. Continuas indiferente ou dobras o riso por causa das suas caras agoniadas!

Depois vais crescendo e as mazelas das tuas experiências no quotidiano vão imprimindo em ti amargas recordações. E pior do que as sequelas fruto do contacto humano-mundo físico, são mesmo as sequelas humano-humano. Essas valem por muitos copos e pratos transformados em vidrinhos. Porque na toalha tu nunca havias confiado, mas no outro, desde o primeiro dia, tu já confiavas … E são estes vidrinhos humanos que nos fazem procurar pelo grande livro da Prudência. Tornas-te numa entidade que arrisco designar adulto-medo. Cresceste!, dizem os que te vêem. Chegando ao cume, lembras-te a meio caminho que começaste a envelhecer … E depois sem dares conta o teu bom-senso fica anémico. Sucumbes.

Nunca vou conseguir compreender qual é a lógica de ter de transfigurar este planeta que não é senão a nossa casa, onde estou eu e tu e tu e tu, simplesmente porque nos obrigam a viver envoltos num medo constante. Às vezes, senão a mais delas, o medo é um obstáculo para aqueles que querem arriscar e voltar a confiar no outro. No entanto, há sempre aqueles que têm latente a alegria de viver e, por isso, voam dentro da sua cabeça na tentativa frustrada de pensar que são muito corajosos! Aldemenos, boam em algum sítio …

Sunday, 1 June 2008

Sobre "Amicitate"

Esqueçam-se os rituais sociais e a artilharia dos clichés. Esqueçam-se as hierarquias, as políticas e os credos. Esqueçam-se do dinheiro e das raças também. Esqueçam-se as mágoas, os sentimentos chumbados pela dor e sofrimento. Esqueçam-se as ambições e o egoísmo humanos. Esqueçam-se do tempo e do espaço. Esqueçam-se de tudo o que criamos para ocupar os entretantos das nossas vidas. Esqueçam!

Concentremo-nos apenas no que realmente existe: o ser humano.

Agora, imaginem um ser humano recém-nascido, não um bebé, mas antes um homem ou uma mulher, mas recém-nascido. Pode ser O Estrangeiro de Albert Camus. Imaginem que provinha do asteróide B612, conterrâneo d’ O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, ou de qualquer outro lugar. Pouco importa! Se ele vos encontrasse o que acham que desejaria da vossa parte?! O que pode um ser humano querer de outro?!

Um ser humano polido pela civilização pode querer de nós um sem número de coisas. Uns inconsciente e outros conscientemente estão connosco porque lhes ensinamos coisas, porque os ajudamos, porque somos fortes, porque somos trabalhadores, ou seja, porque somos catalisadores do seu percurso. Já para não falar de outros motivos supérfluos que não consigo enxergar muito bem: riqueza, status, enfim! O Homem é circunstancialmente interesseiro.

Mas um ser humano virgem de toda e qualquer civilização só pode desejar uma coisa do outro, a sua Amizade. Pensem nas pessoas às quais vocês se uniram simplesmente porque desejavam a sua Amizade. São poucas, não são?! A Amizade é diferente. Houve quem a tivesse definido como a mais rigorosa lei humana. E, de facto, é difícil ser-se Amigo; um verdadeiro, pelo menos …

A sua exactidão recai na igualdade. A Amizade é um acordo, um equilíbrio. A Amizade não dá para receber, não diz para idolatrar, não faz para impressionar. A Amizade é prudente. Não é extravagante, nem trágica, nem zombadora. A Amizade é serena. A Amizade é casta, também. No nosso quotidiano, são poucas as vezes que conseguimos ser Amigos. Pelo contrário, somos variantes desse papel, porque as circunstâncias apressadas são os principais agentes mutagénicos responsáveis por modificar o vector do nosso agir.

A tarefa mais difícil é ser-se Amigo de alguém sem ser por acinte.

Sunday, 4 May 2008

Sobre o conselho do meu Primo

À questão: Qual o teu maior sonho?, eu exibia uma lista de tamanho considerável. Ainda não estão assim tão longínquos os inúmeros compromissos que eu estabelecia com as palavras faladas. Na verdade quase me sentia impelida a cumpri-los com um rigor que hoje vislumbro com admiração sobre a minha precoce tenacidade.

Como a minha reacção era tão apoderada de paixão, não tenham a menor dúvida de que era invadida por uma vontade sedente de dirigir a questão aos demais. A maioria das respostas que ouvia era invariavelmente simples (e quão sucinta!): O meu maior sonho é ser feliz! Esta resposta era mais frequentemente emitida pelos indivíduos do género oposto. Nunca percebi a predilecção deles. Naquela altura aquela resposta afligia-me de tão nua que era. Levei, pelo menos, quatro anos, até agora conseguir satisfazer-me ante aquele sonho tão cobiçado.

Primeiro que tudo, julgo ter sido inebriada pela vulgaridade que destituiu a palavra felicidade de todo o seu verdadeiro sentido. Erroneamente me transpareciam que para ser feliz teria que embarcar rumo à alegria, às gargalhadas e ao divertimento constantes. Tristes de nós se a felicidade fosse tão leviana …

Foi, então que, entretanto, me foi dito que a vida não se tinge apenas de cor-de-rosa. A vida também não se reconhece unicamente no preto. A vida reconhece-se em todas as cores. Essa foi uma das maiores - e mais bonitas também - lições que aprendi! E reconheço, hoje, que poucas são as pessoas que conseguem gostar de todas as cores. Muitas pessoas não fazem um esforço sequer para encontrarem um traço de beleza nalgumas delas; há mesmo cores que são simplesmente postas de parte como se se tratassem de doenças contagiosas e letais. Perdoem-me a insolência, mas esta reacção de natureza finita patenteia avareza de espírito!

Nesta linha, reestruturei o meu significado para a felicidade. A felicidade não existe apenas nos momentos de maior alegria, a felicidade existe também naqueles de maior tristeza. Ser feliz resume-se ao essencial, saber viver o estado de espírito do momento, seja ele de que qualidade for. Ser feliz é ser-se alegre quando sentimos vontade de o ser e ser feliz é, também, ser-se triste quando sentimos vontade de o ser. Esta harmonia é básica para o nosso bem-estar interior. Deste modo, na minha perspectiva, a felicidade encontra-se aí, na congruência.

Com este novo significado eu reformulo a minha resposta à pergunta de encetadura:
Sim, o meu maior sonho também é ser feliz.

Monday, 14 April 2008

Sobre porque é que me tornei vegetariano

Tornar-me vegetariano foi a decisão mais óbvia da minha vida.

Como poderia eu ser tão canalha ao ponto de ser cúmplice das maiores barbáries cometidas aos animais em nome de meros fetiches e caprichos alimentares? Como poderia eu ser tão insensível ao ponto de ignorar os sentimentos destes animais, o seu sofrimento e a sua vida enclausurada em espaços exíguos? Como poderia eu ser tão ignorante ao ponto de desconhecer que a inteligência e dor dos peixes é bem real?

Como poderia eu ser tão indiferente ao ponto de ignorar que um ser humano morre à fome a cada 2,5 segundos e que mais de 800 milhões de pessoas estão subnutridas?

Como poderia eu ser tão irresponsável ao ponto de ignorar que é necessário 14 vezes mais água, 10 vezes mais energia e mais do que 20 vezes mais terra para uma dieta com base em produtos de origem animal do que para uma dieta vegana?

Como poderia eu ser tão sádico ao ponto de ignorar que se criam anualmente 50 biliões de animais para abate em todo o mundo e quase 40% da produção mundial de cereais é usada para a engorda desses animais?

Como poderia eu ser tão cobarde deixando ou obrigando que outros matassem por mim, para satisfazer a minha própria gula?

Como poderia eu respeitar-me tão pouco ao ponto de deixar o meu corpo tornar-se um cemitério crescente de animais e peixes?

Como poderia eu aspirar a procurar ser sempre melhor perante tal violência?

Como poderia eu libertar-me da culpa, do despertar da minha consciência de tudo isto?

Como poderia eu ser tão mesquinho? Como poderia eu ignorar os meus valores, não raras vezes o único suporte da minha vida?

Como poderia eu trair a criança que eu fui e que sonho voltar a ser? Como poderia eu continuar a acreditar em mim mesmo?

Monday, 24 March 2008

Sobre o amor com paixão

“Sim, metade e a mais bela metade da vida é ignorada pelo homem que não amou com paixão” – assim ecoavam as palavras de Stendhal na minha cristalização do amor há uns anos atrás. Muita coisa mudou entretanto e por isso não poderia deixar de descrever o trajecto que o amor percorre segundo aquilo que penso, sendo que não experimentei todos eles:

O amor visual

Época da vida: pré-adolescência ou início da adolescência

É o primeiro dos amores. Rende-se à descoberta da beleza, como quem aprecia uma bela obra de arte ou uma tela real de natureza verdejante e deslumbrante e fica extasiado em contemplá-las. É um amor despropositado, embaraçado, todavia alheio a pressões sociais. É o único amor liberto da metafísica e consciência racional.

O amor imaginativo/poético

Época da vida: início ou meio da adolescência

É o natural sucessor do amor visual. Já não basta contemplar extasiadamente a sua bela obra de arte, é preciso achar um significado. É o berço da idealização do sujeito do seu amor, imaginando-se virtudes infinitas e sonhos celestiais. É um amor constrangido face à perfeição a todos os níveis do sujeito do seu amor. Sufocam-se-lhe os pensamentos, as palavras e consequente reacção. Neste amor só tem coragem com quem se ama quem o ama menos. É o amor menos nostálgico de ser lembrado. Só quem não o entende sente remorsos de nunca ter agido como gostaria.

O amor à primeira vista

Época da vida: nunca anterior ao amor visual e poético, pode surgir em qualquer altura da vida

É o amor relâmpago, fulminante, arrebatador. Não acontece nem ao terceiro nem ao segundo, acontece sim ao primeiríssimo olhar e no mesmo instante surge a pergunta à qual ele próprio já sabe a resposta: “Será possível que me acabei de apaixonar?”. O auto-reconhecimento do amor é instantâneo e infalível. O desespero pode levar a uma coragem sem limites. O desespero supera todo e qualquer medo do ridículo e do disparate segundo as normas sociais. Mas para o sujeito do seu amor este é um amor dinamitado com o qual jamais saberá lidar. Tenta por isso confundir o autor do amor e convencê-lo que está enganado, tenta o impossível! Dificilmente surgirá este amor mais que uma vez em toda a vida.

O amor antinómico

Época da vida: fim da adolescência, início da vida adulta

É o primeiro amor que admite um defeito do sujeito do seu amor. Aliás, ele ama mais que tudo a imperfeição do sujeito do seu amor, não raras vezes a antinomia de si próprio. É um amor que nasce da empatia e do contacto prolongado com o sujeito do seu amor. Dos amores até agora mencionados, é o que demora mais tempo a tomar forma e à nova ilusão de que o seu novo sujeito do seu amor o completa e o faz ser melhor, junta-se uma consciência receosa de que as diferenças possam ser insuperáveis. Um dia necessariamente a sua ilusão virar-se-à contra ele mesmo, apesar de o haver fatidicamente previsto desde o início. É por isso um amor angustiado, pois está consciente que está destinado a fracassar.

O amor não consentido

Época da vida: fim da adolescência, início da vida adulta

É o amor sem licença, não autorizado. À vontade de estar sozinho ou de não se apaixonar surge o futuro sujeito do seu amor disturbá-lo até por fim conquistá-lo. Ele torna-se a presa de um jogo malicioso do futuro sujeito do seu amor que resolve brincar com os sentimentos dele, simulando algo que não sente e seduzindo-o teatralmente. Ele acredita com os seus últimos grãos de fé naquilo que ele acredita ser o seu último amor. Mas a peça teatral é a verdadeira tragédia grega para regozijo do sujeito do seu amor que se vangloriará do seu faz-de-conta. Ele jurará nunca mais cair no embuste. Ele verá todo e qualquer amor com desconfiança de segundas intenções. Ele julga ter perdido, finalmente, a possibilidade de voltar a acreditar no amor.

O amor cauteloso

Época da vida: Vários anos depois de todos os outros

É o amor sabido. Ele não se deixa, triste e infelizmente, arrebatar pelas loucuras e disparates que gostaria de cometer em nome do amor, pois sabe que deitaria tudo a perder. Ele gostaria que tudo pudesse acontecer de uma forma diferente, da forma como o verdadeiro amor com paixão deveria ser vivido. Ele é cauteloso, controla as suas emoções, esconde-se o mais que puder. Ele rir-se-á com sarcasmo dos dias em que o amor o conduziu para o abismo. Desta vez, ele prega uma rasteira ao amor e só o deixará levantar-se quando for o momento certo. Só assim, acredita ele, poderá ser bem sucedido. Contudo, mantém a sua sinceridade e honestidade e essas qualidades ignora ele ainda que serão decisivas para um desfecho infeliz.

O amor banal

Época da vida: Vida adulta ou até antes para a maioria dos mortais; rejeitado pelos idealistas

É o amor de índole sexual, carnal, prático. É o amor comum. O idealista jamais se submeterá a ele, a não ser talvez como acto de vingança para com o amor, sendo que ele mesmo é a excepção. Para o comum dos mortais, esta necessidade de prática do sexo justificará e manterá casamentos anos a fio, trocas de parceiros como quem troca de roupa, etc etc. É o amor sem magia. É o amor sinónimo da falta de ambição e carácter do mundo em que vivemos. É por vezes, e dito sem rodeios, o único amor que o sujeito do amor merece. Tudo é fingido, falso, mentiroso. O eu é agora o eu-simulado, o eu que maximiza as possibilidades de êxito.

Saturday, 1 March 2008

Sobre a nobreza

(À Filósofa)

Ultimamente tenho-me desiludido ou têm-me desiludido. Enfim. O que seja! Estou desiludida. Não terá muito interesse esmiuçar o sucedido e fragmentá-lo em palavras. Em compensação será imensamente pertinente falar acerca do tema. E o tema é tão elementar quanto este: a dicotomia entre o Bem e o Mal.

Se percorrermos a História da Humanidade, aquelas e aqueles que viveram fiéis aos seus princípios foram perseguidos, martirizados e mortos. Como se a História nos quisesse ensinar que não faz parte dos desígnios dos homens aprenderem a viver nessa aliança tão próxima do Bem, do correcto. Quem é que hoje não se deixa corromper?

Pensei em tempos que a tenra idade nos daria imunidade ao Mal, mas confronto-me, agora, que são poucas as verdadeiras crianças. É como se a maioria de nós nascesse já com o espírito povoado de ervas daninhas, contanto que, em nós, predomina a imaturidade, ao invés da salutar infantilidade. Estas crianças imaturas tornam-se jovens imaturos e, mais tarde, adultos imaturos. A imaturidade confere-lhes uma grave incapacidade: não lhes permite viver em prol dos seus valores. Vivem em prol da matéria. Assustava-me se os pilares da minha vida fossem de pedra …

Outro aspecto que não consigo deixar de reclamar é a labilidade da conversão do Mal em Bem e, outrossim, do Bem em Mal. Nos dias de hoje, quem faz o Mal consegue, de um modo extravagante, amaciar as rugosidades e delegar aos olhos dos mais permeáveis uma realidade mais amena, mais sagaz. Deste modo, e consequentemente, polvilham de perversidade o Bem. Esta interconversão é tão absurda que chega a doer naqueles que não descuram os verdadeiros limites entre o Bem e o Mal.

Não sou alguém moralmente irrepreensível. No entanto, não posso deixar de expressar a minha admiração àqueles que, a todo o custo, investem para que os seus dias sejam provas vivas de lealdade aos seus valores, independentemente disso ser sinónimo de uma vida mais ou menos feliz. Estas pessoas são, de resto, errantes de um mundo mais-que-perfeito.

Sunday, 24 February 2008

Sobre coisas sem nome

O meu comportamento diante da maléfica caixinha do século passado é invariavelmente o mesmo: telecomando na mão e acciono o zapping. Nesse momento, uma vaga de bichinhos carpinteiros toma conta de mim. Esta incapacidade de me entregar à inércia é proporcionalmente custosa à minha inutilidade ao Mundo naqueles instantes. E o facto é que até tenho, na maioria das vezes, sorte na qualidade do conteúdo que até mim chega ao longo deste exercício.

Decorrente desta mania, foi certa vez que conheci o Inventor. O Inventor trabalhava numa oficina de brinquedos. Era um sonhador com rugas no rosto, um nariz pincelado de óleo e um tufo de cabelinhos grisalhos. Foi ele quem me ensinou uma regra de ouro – as coisas só existem a partir do momento em que adquirem um nome. E demais a mais, o Inventor era um velho profundo.

Bem mais tarde, travei conhecimento com o isomorfismo de Ludwig Wittgenstein. De acordo com este filósofo, os contornos do mundo que cada um constrói são coincidentes com os contornos da linguagem que cada um possui, isto é, há uma igualdade imperativa de formas. Nas suas palavras, Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Isto faz-me lembrar os decalques a papel vegetal que fiz na tentativa (muitas vezes, frustrada) de conseguir mais um pontinho na avaliação de desenho na escola primária.

Somando a teoria do Inventor à teoria isomórfica, poderia inferir que tudo o que não é exequível através da linguagem simplesmente inexiste para mim, porque não pertence ao meu mundo. O problema coloca-se quando me apercebo que no meu mundo existem coisas que não consigo traduzir através da linguagem. A linguagem inclui recursos tão vastos e ricos como a língua e, ainda, sinais visuais; no entanto, aparentemente são insuficientes. Com efeito, já experimentei coisas que não consigo exprimir de nenhuma dessas formas. Poderei, então, afirmar que essas coisas não existiram ou não existem para mim?! Porventura, não. A sua existência é uma miragem: parecem existir, mas quando as tentamos definir fazemo-las sucumbir. Tal como se a anonímia fosse uma expressão da rebelião de certas coisas. Sim, porque nem tudo o que existe tem que ser bem-comportadinho.

Friday, 4 January 2008

Sobre a ideia de nós mesmos

Qualquer juízo de valor sobre nós mesmos é sempre desprovido de imparcialidade. Pior, é quase sempre sobreavaliado, sobrestimado, IDEALIZADO. Experimentem pedir a alguém para se descrever e essa pessoa necessariamente responderá a pessoa que ela gostaria de ser.

Experimentem pedir a alguém para o/a descrever e essa pessoa necessariamente responderá a pessoa que você não é.

Experimentem pedir a deus para o/a descrever e ele ficará calado.

“Conhece-te a ti mesmo”…. Sócrates bem podia ter sido mais directo e esclarecido, evitando-se mal entendidos milenares:

-> Conhece aquilo que não és: a tua ideia de ti mesmo. Aquilo que és jamais chegarás a conhecer.