“Sim, metade e a mais bela metade da vida é ignorada pelo homem que não amou com paixão” – assim ecoavam as palavras de Stendhal na minha cristalização do amor há uns anos atrás. Muita coisa mudou entretanto e por isso não poderia deixar de descrever o trajecto que o amor percorre segundo aquilo que penso, sendo que não experimentei todos eles:
É o primeiro dos amores. Rende-se à descoberta da beleza, como quem aprecia uma bela obra de arte ou uma tela real de natureza verdejante e deslumbrante e fica extasiado em contemplá-las. É um amor despropositado, embaraçado, todavia alheio a pressões sociais. É o único amor liberto da metafísica e consciência racional.
É o natural sucessor do amor visual. Já não basta contemplar extasiadamente a sua bela obra de arte, é preciso achar um significado. É o berço da idealização do sujeito do seu amor, imaginando-se virtudes infinitas e sonhos celestiais. É um amor constrangido face à perfeição a todos os níveis do sujeito do seu amor. Sufocam-se-lhe os pensamentos, as palavras e consequente reacção. Neste amor só tem coragem com quem se ama quem o ama menos. É o amor menos nostálgico de ser lembrado. Só quem não o entende sente remorsos de nunca ter agido como gostaria.
O amor à primeira vista
Época da vida: nunca anterior ao amor visual e poético, pode surgir em qualquer altura da vida
É o amor relâmpago, fulminante, arrebatador. Não acontece nem ao terceiro nem ao segundo, acontece sim ao primeiríssimo olhar e no mesmo instante surge a pergunta à qual ele próprio já sabe a resposta: “Será possível que me acabei de apaixonar?”. O auto-reconhecimento do amor é instantâneo e infalível. O desespero pode levar a uma coragem sem limites. O desespero supera todo e qualquer medo do ridículo e do disparate segundo as normas sociais. Mas para o sujeito do seu amor este é um amor dinamitado com o qual jamais saberá lidar. Tenta por isso confundir o autor do amor e convencê-lo que está enganado, tenta o impossível! Dificilmente surgirá este amor mais que uma vez em toda a vida.
O amor antinómico
Época da vida: fim da adolescência, início da vida adulta
É o primeiro amor que admite um defeito do sujeito do seu amor. Aliás, ele ama mais que tudo a imperfeição do sujeito do seu amor, não raras vezes a antinomia de si próprio. É um amor que nasce da empatia e do contacto prolongado com o sujeito do seu amor. Dos amores até agora mencionados, é o que demora mais tempo a tomar forma e à nova ilusão de que o seu novo sujeito do seu amor o completa e o faz ser melhor, junta-se uma consciência receosa de que as diferenças possam ser insuperáveis. Um dia necessariamente a sua ilusão virar-se-à contra ele mesmo, apesar de o haver fatidicamente previsto desde o início. É por isso um amor angustiado, pois está consciente que está destinado a fracassar.
Época da vida: fim da adolescência, início da vida adulta
É o amor sem licença, não autorizado. À vontade de estar sozinho ou de não se apaixonar surge o futuro sujeito do seu amor disturbá-lo até por fim conquistá-lo. Ele torna-se a presa de um jogo malicioso do futuro sujeito do seu amor que resolve brincar com os sentimentos dele, simulando algo que não sente e seduzindo-o teatralmente. Ele acredita com os seus últimos grãos de fé naquilo que ele acredita ser o seu último amor. Mas a peça teatral é a verdadeira tragédia grega para regozijo do sujeito do seu amor que se vangloriará do seu faz-de-conta. Ele jurará nunca mais cair no embuste. Ele verá todo e qualquer amor com desconfiança de segundas intenções. Ele julga ter perdido, finalmente, a possibilidade de voltar a acreditar no amor.
O amor cauteloso
Época da vida: Vários anos depois de todos os outros
É o amor sabido. Ele não se deixa, triste e infelizmente, arrebatar pelas loucuras e disparates que gostaria de cometer em nome do amor, pois sabe que deitaria tudo a perder. Ele gostaria que tudo pudesse acontecer de uma forma diferente, da forma como o verdadeiro amor com paixão deveria ser vivido. Ele é cauteloso, controla as suas emoções, esconde-se o mais que puder. Ele rir-se-á com sarcasmo dos dias em que o amor o conduziu para o abismo. Desta vez, ele prega uma rasteira ao amor e só o deixará levantar-se quando for o momento certo. Só assim, acredita ele, poderá ser bem sucedido. Contudo, mantém a sua sinceridade e honestidade e essas qualidades ignora ele ainda que serão decisivas para um desfecho infeliz.
O amor banal
Época da vida: Vida adulta ou até antes para a maioria dos mortais; rejeitado pelos idealistas
É o amor de índole sexual, carnal, prático. É o amor comum. O idealista jamais se submeterá a ele, a não ser talvez como acto de vingança para com o amor, sendo que ele mesmo é a excepção. Para o comum dos mortais, esta necessidade de prática do sexo justificará e manterá casamentos anos a fio, trocas de parceiros como quem troca de roupa, etc etc. É o amor sem magia. É o amor sinónimo da falta de ambição e carácter do mundo em que vivemos. É por vezes, e dito sem rodeios, o único amor que o sujeito do amor merece. Tudo é fingido, falso, mentiroso. O eu é agora o eu-simulado, o eu que maximiza as possibilidades de êxito.