Saturday, 1 March 2008

Sobre a nobreza

(À Filósofa)

Ultimamente tenho-me desiludido ou têm-me desiludido. Enfim. O que seja! Estou desiludida. Não terá muito interesse esmiuçar o sucedido e fragmentá-lo em palavras. Em compensação será imensamente pertinente falar acerca do tema. E o tema é tão elementar quanto este: a dicotomia entre o Bem e o Mal.

Se percorrermos a História da Humanidade, aquelas e aqueles que viveram fiéis aos seus princípios foram perseguidos, martirizados e mortos. Como se a História nos quisesse ensinar que não faz parte dos desígnios dos homens aprenderem a viver nessa aliança tão próxima do Bem, do correcto. Quem é que hoje não se deixa corromper?

Pensei em tempos que a tenra idade nos daria imunidade ao Mal, mas confronto-me, agora, que são poucas as verdadeiras crianças. É como se a maioria de nós nascesse já com o espírito povoado de ervas daninhas, contanto que, em nós, predomina a imaturidade, ao invés da salutar infantilidade. Estas crianças imaturas tornam-se jovens imaturos e, mais tarde, adultos imaturos. A imaturidade confere-lhes uma grave incapacidade: não lhes permite viver em prol dos seus valores. Vivem em prol da matéria. Assustava-me se os pilares da minha vida fossem de pedra …

Outro aspecto que não consigo deixar de reclamar é a labilidade da conversão do Mal em Bem e, outrossim, do Bem em Mal. Nos dias de hoje, quem faz o Mal consegue, de um modo extravagante, amaciar as rugosidades e delegar aos olhos dos mais permeáveis uma realidade mais amena, mais sagaz. Deste modo, e consequentemente, polvilham de perversidade o Bem. Esta interconversão é tão absurda que chega a doer naqueles que não descuram os verdadeiros limites entre o Bem e o Mal.

Não sou alguém moralmente irrepreensível. No entanto, não posso deixar de expressar a minha admiração àqueles que, a todo o custo, investem para que os seus dias sejam provas vivas de lealdade aos seus valores, independentemente disso ser sinónimo de uma vida mais ou menos feliz. Estas pessoas são, de resto, errantes de um mundo mais-que-perfeito.