Sunday, 24 February 2008

Sobre coisas sem nome

O meu comportamento diante da maléfica caixinha do século passado é invariavelmente o mesmo: telecomando na mão e acciono o zapping. Nesse momento, uma vaga de bichinhos carpinteiros toma conta de mim. Esta incapacidade de me entregar à inércia é proporcionalmente custosa à minha inutilidade ao Mundo naqueles instantes. E o facto é que até tenho, na maioria das vezes, sorte na qualidade do conteúdo que até mim chega ao longo deste exercício.

Decorrente desta mania, foi certa vez que conheci o Inventor. O Inventor trabalhava numa oficina de brinquedos. Era um sonhador com rugas no rosto, um nariz pincelado de óleo e um tufo de cabelinhos grisalhos. Foi ele quem me ensinou uma regra de ouro – as coisas só existem a partir do momento em que adquirem um nome. E demais a mais, o Inventor era um velho profundo.

Bem mais tarde, travei conhecimento com o isomorfismo de Ludwig Wittgenstein. De acordo com este filósofo, os contornos do mundo que cada um constrói são coincidentes com os contornos da linguagem que cada um possui, isto é, há uma igualdade imperativa de formas. Nas suas palavras, Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. Isto faz-me lembrar os decalques a papel vegetal que fiz na tentativa (muitas vezes, frustrada) de conseguir mais um pontinho na avaliação de desenho na escola primária.

Somando a teoria do Inventor à teoria isomórfica, poderia inferir que tudo o que não é exequível através da linguagem simplesmente inexiste para mim, porque não pertence ao meu mundo. O problema coloca-se quando me apercebo que no meu mundo existem coisas que não consigo traduzir através da linguagem. A linguagem inclui recursos tão vastos e ricos como a língua e, ainda, sinais visuais; no entanto, aparentemente são insuficientes. Com efeito, já experimentei coisas que não consigo exprimir de nenhuma dessas formas. Poderei, então, afirmar que essas coisas não existiram ou não existem para mim?! Porventura, não. A sua existência é uma miragem: parecem existir, mas quando as tentamos definir fazemo-las sucumbir. Tal como se a anonímia fosse uma expressão da rebelião de certas coisas. Sim, porque nem tudo o que existe tem que ser bem-comportadinho.