Nos últimos tempos, as pessoas que conheço razoavelmente bem têm sido, por breves instantes, deformadas aos meus olhos, à semelhança do que acontece quando se entra na casa dos espelhos da feira popular. O seu semblante fica disforme, são-me estranhas. Começo, então, a sentir-me desconfortável junto delas e consigo mesmo sentir medo delas …
Nestes momentos de jamais vu, apetece-me meramente virar costas ao mundo. Pego no meu chapéu e corro para longe. Sento-me na pedra mais a jeito e lanço o anzol que pende da minha cana de pesca. De frente para o mar, sinto as recordações morderem o isco.
Sardinhas de palavras. Palavras que, injustamente, na altura apreciei tão pouco. Carapaus de gestos. Gestos que por terem sido tão fortes e autênticos, ainda hoje, ao recordá-los me taquicardizam. Um tubarão de sentimentos. Sentimentos que foram dirigidos especificamente para mim e eu, a todo o custo, embora não saiba em nome de quê ou de quem, os refutei. Nessa altura, o tubarão era pequeno e provavelmente fácil de ser pescado. Hoje, o tubarão é adulto, enorme! Impossível de ser roubado ao mar. Incrível! Passados estes anos todos, o meu passado mantém-se o meu porto de abrigo.
Aqui, não vale a lei dos similares, jamais vu só cessa com déjà vu! Para quê lamentar as não-acções fora do seu momento ?! Mesmo não o praticando frequentemente, nunca me esquecerei de que tudo tem um instante na linha temporal do mundo para acontecer.