É extremamente interessante aperceber-me que a nossa inteligência é uma espada de dois gumes, ora nos faz os seres mais profundos, ora nos torna de tal modo artificiais até cairmos no patético. Muito facilmente perdemos os motivos das nossas escolhas, uma vez que, apesar de toda a nossa complexidade, na nossa essência, somos seres práticos.
Faz algum sentido termos celebrado uma mudança de ano? Na verdade, o ano só mudou porque nós, seres humanos, quisemos que o Tempo existisse. Tornamos o Tempo num pretexto que nos força a estar juntos e nos incentiva ao encontro, à união … Enfim, no final das contas, o Tempo consegue fazer-nos escapar à temível (!) solidão.
Queremos que haja um Novo Ano para termos uma oportunidade frustrada de condicionarmos a nossa mortalidade. Pois, cada Novo Ano é uma possibilidade de ruptura, de fim seguido de começo, de renascimento. É, contudo, Sol de pouca dura. Porque o Novo Ano é tão-só uma mera repetição de todos os anos precedentes, porque o Homem é um ser obstinado. E isso é evidente a cada transição de ano. Ora, vejam, a guerra na faixa de Gaza permanece; quem é pobre continua pobre; quem tem de morrer, morre; os corruptos continuam poderosos; os comentadores discursam palavras moribundas de optimismo …
Tudo se mantém. Afinal, para quê tanta festa quando Ano Novo não traz Vida Nova?