Wednesday, 10 December 2008

Sobre um ano, cinco meses e catorze dias

Anteontem, pela primeira vez, assisti na televisão ao Carlos Paião a cantar ao vivo num programa da Simone de Oliveira. Já o tinha ouvido na rádio pelas músicas mais populares, já o conhecia por fotografias que haviam surgido na televisão ou nos jornais. Mas nunca o tinha visto tão completo, tão vivo! De uma timidez envolvente acompanhada de uma quieta e brincalhona afabilidade. Fiquei estarrecida. Os seus movimentos rimavam com o seu sorriso simples. Simples, Carlos Paião é todo ele simples!

O que mais me intrigou realmente foi ter sentido saudades dele! Era isso que eu estava a sentir naquele momento. Saudades. É possível sentirem-se saudades de alguém que não conhecemos em Vida ?! De alguém que nunca tomei consciência existir enquanto estava vivo ?! É aqui que, novamente, a Vida se me revela um número de magia … Não se explica. O facto de ele se ter licenciado em Medicina e depois ter optado pela música, também, sem querer e querendo, reveste-se de significado.

Qualquer morte é uma perda. Mas há perdas que são mais mortes que outras. Quem morre antes do tempo - não precisa ser por força o tempo biológico - fica para sempre com o cognome de D. Sebastião, ficará sempre
o desejado.

Escrevo ouvindo-o. Imagino-o num cafezinho à média-luz junto de um piano. Não é a esmo que, mesmo passados vinte anos da sua morte, haja alguém que nunca o conheceu, mas o sinta tão vivo e tão sereno à distância da música:
Quem me dera saber fazer versos na voz de perlimpimpim. Pôr na alma sonhos de boneca perfumada para me dar conta que já mais nada vale nada ao pé de ti.

Eu podia lutar contra os vivos, mas não contra os mortos. (…) Rebeca nunca envelheceria. Rebeca seria sempre a mesma. E contra ela, não podia lutar.
In: DU MAURIER, Daphne. Rebeca. Colecção dois mundos. Lisboa. Pp. 215 – 216.