Meus pés são tamanho 50, mas haverá algum fabricante que faça sapatos tão grandes? Bem, posso sempre pedir ao sapateiro, àquele velhinho, de bigodes cansados, que fuma cachimbo nos dias de chuva, que faça um par especialmente para mim. Do mal, o menos, sempre fico com uma forma de proteger os meus dedos do frio, as plantas das pedras do alcatrão e dos bichinhos da terra.
Mas ... E qual é a solução para aqueles que sentem mais do que as palavras tornam possível? Ficam em silêncio? Um silêncio maior que o coração e o sangue que os inunda, que o ar que lhes insufla os pulmões, maior que o corpo inteiro e a alma do Além. Um silêncio que paira sobre todo o céu e penetra por entre todas as florestas, um silêncio que chapinha em cada onda do oceano, um silêncio que troça do rugir das feras e se encanta com o piar dos passarinhos. Um silêncio que preenche todo o vácuo. Um silêncio para o qual o tamanho do mundo é insuficiente e o do Universo se prenuncia escasso. Será, então, a infinitude a única medida deste silêncio? Única, única, única, única, única. Antes, será o seu não apalavrar que o torna tão impossível prisioneiro? Impossível, impossível, impossível, impossível, impossível.
O que é isto, meu Deus?!