Foi a um Sábado que extraordinariamente apanhei o metro para seguir rumo à terra natal do meu Pai. Estava cheio! Não parecia ser fim-de-semana, parecia-me um qualquer dia útil. Sentado à minha frente estava um senhor que, mais tarde, eu me apercebi ser cego. Entretanto, o senhor levantou-se e guiado pelo seu amparo, encaminhou-se até à saída.
Estranhamente, eu não o olhava, porque mesmo sabendo da sua cegueira, acho que não seria justo observá-lo tão declaradamente. A cada passo seu, entoavam sons simétricos no lado direito e depois no lado esquerdo e, novamente, no lado direito e depois no lado esquerdo. Encontrou um obstáculo: um varão de ferro pintado de amarelo. O seu amparo conseguiu detectá-lo. Seguro de que estava no caminho certo, o senhor cego avançou um pouco mais. Quando, de repente, eu olhei e, no espaço de um ciclo respiratório meu, vi o senhor cego bater com a fronte naquele varão que inesperadamente era alargado na sua porção superior. Ele não tinha amparo que conseguísse evitar aquele imprevisto, a não ser sofrer no seu próprio corpo a dor de não ver. Quando vi aquele embate, o meu saco lacrimal contraiu-se, mordi o lábio inferior e fechei os olhos. A minha vontade genuína era ir ao seu encontro e perguntar-lhe se estava bem. Mas não fui. Aliás, ninguém foi. Cuidei dele ao longe. Quando o senhor cego recuperou da pancada, consciencializou-se da dor, cerrou os olhos com muita força e manteve-os fechados. O escuro continuou a ser a sua luz …
Finalmente, o senhor cego chegou à porta do metro e ao seu destino também. Já de costas para mim, eu olhava-o. A porta abriu-se e foi neste instante preciso que um sentimento de revolta ardeu dentro de mim. Apesar de na porta estar em letras maiúsculas, ANTES DE ENTRAR DEIXE SAIR, um grupo de adolescentes entrou enlevado pela altivez da juventude. Foi preciso uma senhora gritar, Deixem o senhor sair! Eu fiquei onde estava. Observava o senhor cego agora através da janela, enquanto as adolescentes se acomodavam junto de mim. No caminho, eu pensava em como se estaria a sentir aquele homem … Quando ele chegasse a casa teria alguém com quem falar ?! Teria alguém que desse pela presença dele ?! Ao mesmo tempo, ouvia-as falar de festas e roupas e de um tal Jorge.
Nesse dia, adormeci a pensar que a pirâmide de Maslow fizera a roda, o vértice ficara desequilibradamente virado para baixo!