Monday, 15 September 2008

Sobre uma fogueira

3 Toros de madeira grandes e robustos
10 Pauzinhos finos
2 Folhas de jornal
1 Acendalha
1 Fósforo
1 Fole
O2 q.b.

Foi desta forma que dois exemplares modernos do Homo erectus recordaram a magnífica descoberta do fogo. Porém, esse evento trouxe-nos mais do que luz. Na verdade, a fogueira não serviu sequer para nos aquecer - aliás, nem frio estava naquele crepúsculo de finais de Julho - nem somente para cozinhar o jantar. Essa labareda serviu para ver, ou mais correctamente, para reparar. Reparar que a pessoa que estava ali ao meu lado, um dia, iria devolver o equilíbrio à Natureza e também viraria cinzas.

Foi, então, que, para mim, cada milímetro cúbico da sua existência física se tornou precioso: as células, o cabelo, as rugas de expressão, os movimentos e a própria voz. Tudo inflacionou o seu valor! Senti estar diante um Ser Não Quantificável (S.N.Q.).

Vamos colocar mais uns quantos pauzinhos, disse-lhe eu. Gostava de lhe ter falado sobre o que realmente estava a pensar. Mas, gostava ainda mais de lhe ter falado sobre o que estava a sentir, ao ponto daquele momento se ter tornado único na minha existência.

Gostava de lhe ter dito quão queria perdurar, abraçar e não deixar fugir aquele instante. No entanto, ficamos ali, mudos no mundo dos sentimentos, a contemplar o fogo que consumia a madeira … Até virar brasas. À noitinha, das brasas restaram cinzas; e do meu pensamento arrependimento por ter ficado calado.