Meu querido,
Sinto-o agudamente. Sinto-o dolorosamente. Ao vazio.
Sabes que não sou de me queixar. Sabes que sou paciente, que
tudo suporto. Mesmo o que não cabe em mim, suporto, quase rebento pelas costuras. Mas
não descoso.
Bolas, mas isto, isto tem dado cabo de mim ...
Não é a solidão que prevalece sequer. É a sede e a fome. Não
me dão de beber, nem de comer. Nem gotas, nem migalhas. Estou tão franzina, se
me visses! Eles são bons. Conhecem muito: tecnicamente irrepreensíveis,
memória espectacular, eticamente impecáveis. Mas são estreitos. Tão
pobres. Feios de leves. Sabem pouco. Falta-lhes densidade, profundidade,
silêncio, sofrimento.
Já não consigo calar um segredo ... Invento-me e preciso-te.
Afinal, a que horas te espero ?
Tua M.