Muito provavelmente imbuída pelo recente estudo sobre o processo de luto, reavivei uma questão antiga: qual virá a ser a minha última palavra no momento em que fechar os olhos para sempre ?! Para mim, é uma pergunta pertinente na medida em que as palavras têm um valor elevado. As palavras são a única forma de transmitirmos a quem nos ouve, a quem nos lê, com algum grau de verosimilhança, o que vai dentro de nós.
Por muito tempo, a minha palavra escolhida foi Saudade. Seria a Saudade de estar viva, a Saudade de tudo quanto existir me proporcionou. No entanto, Saudade não chega. Não me parece que seja suficiente. Nem de propósito, hoje saí à rua e estava sol, aquele sol que um estudante dentro de quatro paredes está privado de sentir, e, por isso, optei por ir a pé. Qual não foi o meu espanto ao dirigir distraidamente o meu olhar para o lado esquerdo, encontrei uma placa que dizia: Rua da Saudade! Eu que até sou péssima a dar indicações a estrangeiros (não sei quantos deles foram já, sem querer, enganados por mim) nunca mais vou esquecer onde fica aquela ruela. Mas, certamente ninguém me vai indagar pela Rua da Saudade, porque é um beco sem saída. Podem não acreditar, mas esta associação fez ricochete em mim. A Saudade não é mesmo isso ?! Um sentimento semelhante a um beco sem saída ?! Neste seguimento, decidi que Saudade seria a preterida, não a preferida.
Estas coisas das palavras lembram-me invariavelmente uma conversa de rádio que escutei com admiração, numa noite, faz três anos. Nessa conversa, o entrevistado era o Dr. Eduardo Prado Coelho. Perguntaram-lhe qual seria a sua palavra de eleição. Entre a pergunta e a resposta, a minha cabecita deu voltas e voltas aos milhares de vocábulos da Língua Portuguesa que ele poderia escolher. Sabem qual foi a escolhida ?! Ternura.
Cuidem para que cada palavra vossa seja minimamente fidedigna, nunca se sabe quando poderá ser a última …