Wednesday, 25 July 2007

Sobre o erro cartesiano da demonstração da existência de Deus

Eis resumidamente como nasceu o Deus cartesiano.

1. Descartes duvida de tudo (até de Deus). Pois bem podemos ter sido criados com a intenção de nos enganarmos ad nauseam.
2. Descartes descobre que pensa, logo existe.
3. Descartes separa a alma como uma substância inteiramente distinta do corpo. A alma precede o corpo.
4. Usando a circunspecção temos a ideia de várias coisas, mas não pode garantir a existência delas.
5. Excepção: a ideia ou noção de um ser omnisciente, todo-poderoso e extremamente perfeito e que se subsiste a Ele mesmo (ao contrário de nós). Logo, ser totalmente perfeito é ou existe. É o chamado argumento ontológico a priori da existência de Deus.

A partir daqui, Descartes deduz toda a sua filosofia, pelo que vou analisar a sua plataforma de base.

1ª falácia: A ideia de podermos ter sido criados com a intenção de nos enganarmos constantemente é em si uma ideia, mas nada comprova a sua veracidade, a sua existência de facto, como é realçado no ponto 4. Logo, a dúvida metódica não tem fundamento.

2ª falácia: Não existe evidência alguma que a alma subsista fora do corpo. Até que provem em contrário, a alma é inteiramente indissociável ao corpo. Acho até plausível que o corpo preceda a alma.

3ª falácia: a necessidade de ser ou existir eternamente, da perfeição na ideia de Deus justifica a sua existência? Porque nas ideias de outras coisas nada garante a sua própria auto-subsistência ao contrário de Deus?

Esta é a maior falácia de Descartes. Supõe que nós não subsistimos por nós próprios (nós “alma”, pois duvida do corpo). De facto, é bem verdade, a alma não poderia subsistir sem o corpo e também o corpo precisa desta como precisa de um coração, de pulmões, etc. Mas Descartes afirma que é Deus que garante a nossa subsistência.

Suponhamos que Deus existe e é perfeito e omni-potente. Então a Sua obra não poderia ser menos que perfeita, pois isso contraria a ideia de Deus como ser perfeito. Digo até mais, não poderia ser menos perfeita que Ele mesmo. Então como poderia o Universo e tudo nele contido não se subsistir a si mesmo? Mas se o Universo se subsiste a ele mesmo, não existe a necessidade de algo que garanta a nossa subsistência, por conseguinte não existe a necessidade da existência de Deus. Se Deus houve, morreu quando criou a sua obra pois perdeu o seu fundamento, a sua finalidade, pois já não precisamos Dele para subsistir. Se continuasse a existir e pudesse interferir em tudo o que nos rodeia, agora sim tudo seria caótico e poderíamos duvidar de tudo, pois Deus poderia alterar a ordem imutável das coisas, a ordem imutável das leis do Universo. Tudo estaria sujeito à arbitrariedade de Deus para sempre.

Mas o Universo foi criado? Se a Sua obra tem que ser tão perfeita quanto Ele, a sua obra é eterna tal como Ele. Mas se é eterna, não pode ter sido criada, logo contraria a premissa do nosso raciocínio que Deus criou o Universo.

Eis como morreu o meu Deus cartesiano. Mas chegou Ele a nascer? Sim, no plano das ideias.