Friday, 25 May 2007

Sobre o aborrecimento

No que me toca, é sempre meu amigo das minhas horas menos bem passadas e vem sempre em momento oportuno. Adora de quando em quando sussurrar-me ao ouvido:

“Pedro, estás aí? Acorda, põe-te a mexer! Lembra-te… Não é a vida que é aborrecida, és tu que te tornaste aborrecido, hoje até a mim me aborreces. Estás insuportável. Sabes bem que eu, que me chamo aborrecimento, não sou muito sociável e gosto de estar sozinho.

És ainda muito novo para te aborreceres, tu que ainda aspiras ao impossível, tu que ainda sonhas como uma criança e tens as ilusões todas guardadas em ti.

Tu que tens a insensatez da juventude e gostas de ser politicamente incorrecto. Tu que sonhas conhecer o mundo e quiçá carregá-lo aos ombros.

Vai brincar, filho, vai! A bola ainda tem muito que girar! Olha, já chutei-a para longe de mim! Quão longe ela foi parar! Mas antes de ires, lembra-te do que o nosso amigo Voltaire nos ensinou: Quem não tem o espírito da sua idade, tem toda a infelicidade da sua idade”.