Saturday, 24 November 2007

Sobre o absurdo de viver

Destino: casa. Apanhei o autocarro. Mais um dia se tinha passado. Aulas e trabalhos. Finalmente, tinha chegado ao autocarro que me levaria direitinha ao local onde queria estar, a minha casa.

À medida que a fatal dicotomia do pára e arranca de qualquer autocarro público se concretizava, este ia-se esvaziando. Muitas pessoas saíam e já poucas entravam. A partir de uma dada altura já ninguém entrava. Apenas saíam pessoas. Um senhor de aparência humilde teimava em ficar de pé, apesar dos lugares sentados estarem quase todos vazios. Estava a anoitecer.

De súbito, o silêncio que reinava naquele autocarro foi interrompido por um desabafo: “Estou farto deste caminho. Há 30 anos que faço este percurso!”. O senhor que teimava em ir de pé abordou o motorista com estas palavras de revolta. O motorista indignado descartou a sua culpa. O homem humilde parecia não o querer ouvir e repetia: “Estou farto, bolas! Nunca mais isto termina …” O silêncio regressou novamente. O autocarro prosseguiu.

Por momentos, o autocarro deixou de ser um veículo: perdeu as rodas, os vidros partiram-se e a cor azul esbateu-se. Ergueram-se paredes de madeira, cadeiras com estofos forrados de veludo de cor vermelho bordô. O autocarro era agora um confessionário. Aquele desabafo ecoou na minha mente: reproduzi-o vezes sem conta. Senti a partir daí que de nada havia de mais irrisório do que todas as normas sociais e culturais. Por instantes, todo o legado deixado pelos nossos antepassados deixou de ter sentido para mim. Despi as ruas da Civilização. Restou a Natureza. Despi as pessoas que vislumbrava na rua de todos os colares de ouro, gravatas atadas ao pescoço e cabelos enfeitados. Restaram seres humanos. Que absurdo senti que era viver assim tão vestido!

Não houve vez alguma em que se comprovasse tão perfeitamente a teoria da Relatividade de Einstein: que longe estava a minha casa naquele dia …